Contando historia

Quando eu era menino escutava algumas historinhas contadas por minha avó. Geralmente ela convidava meus primos, e reunidos ao seu redor, ouvíamos aqueles contos de "lobisomem", "curupira", e outras lendas que fascinavam nossas mentes infantis. Tudo era muito fantástico.

Acredito que quem mora ou morou no bairro da Prainha, certamente ouviu uma daquelas lendas de que rondava pelos becos daquela ruas uma porca. Dizem alguns que aquela porca era na verdade uma pessoa que se transformava em animal por alguma maldição. Dizem até que um rapaz teria brigado com aquele animal que transformava-se, geralmente em noites de lua cheia. Verdade ou não, algumas pessoas temiam andar pelos becos das ruas daquele bairro. 

Com o passar dos anos a gente vai crescendo e encontramos outras histórias nem tão fabulosas assim, mas que por alguma razão não conseguimos esquecer. 


A historinha que vou contar aqui é triste. Mas, quem sabe algumas mentes se lembrem e contem-na melhor que eu.

A muitos anos morava por estas bandas um senhor muito rico, possuidor de muitas terras. Este homem, segundo diziam, tinha feito um "pacto com o demônio" para ter muitas terras e muito dinheiro. O suposto capetinha, teria lhe dito que o mesmo seria rico em pouco tempo, mas que tudo na vida teria um preço. Tamanha fosse a sua riqueza, incrível e inesperada, igualmente, assim seria a sua morte. Para conclusão de seus desejos o senhor das terras teria que repetir sempre, em tudo o que fizesse, a seguinte frase:

- O meu Deus é outro!

O pacto foi feito. Rapidamente sua riqueza se espalhou e aumentou. Mas, tão grande era sua riqueza, maior ainda era sua maldade. Principalmente com quem trabalhasse com ele. Qualquer erro seus empregados, os mesmos eram humilhados na frente dos demais, além de serem expulsos e escurraçadas da cidade. E, envergonhados, na sua grande maioria, eles fugiam para lugares, o mais distante que pudessem, por vergonha e medo.

Um determinado dia, este SENHOR DAS TERRAS encontrou um erro nas contas de seu funcionário. Chamou-o à parte. E, à maneira antiga, deu-lhe uma "pisa", na frente dos demais, como forma de correção, para que "aprendessem". E não adiantava clamar por Deus ou pelos santos que ele sempre repetia sorridente a seguinte frase

- Meu deus é outro!

Determinado dia chega em suas terras um senhor humilde a fim de conseguir emprego e manter sua família por aqui. Num antigo "barracão", da cidade desenrola-se mais ou menos esta conversa:
- Bom dia!
- Bom dia! O que deseja?
- Estou vindo de um engenho em busca de emprego para cuidar melhor de minha família. Me contaram que o SENHOR está precisando de um ajudante e acredito que eu sou a pessoa ideal.
- Pois muito bem! A partir de hoje o senhor se instala com sua família em casa próxima que tenho, e trabalha para mim. Mas preste atenção, viu, que o meu deus é outro!

Embora não entendendo nada, o senhor humilde consente com a cabeça e sai feliz por ter conseguido um meio de sustento para sí e familia.

Naquela época, boa parte dos acordos se davam por boca. Não precisavam de papeis e documentações como nos dias de hoje.

Rapidamente o senhor humilde, todo contente, aloja sua família em casa modesta e começa a trabalhar para o SENHOR DAS TERRAS. 

Os dias rapidamente transcorrem. Todos felizes. Inclusive o SENHOR DAS TERRAS que estava satisfeito com o trabalho e a atuação do senhor humilde. Logo, ele se tornara capataz. Alguém de alta confiança. Qualquer coisa que o SENHOR DAS TERRAS quisesse sempre que contava com o senhor humilde. Com o tempo, o SENHOR DAS TERRAS começou a observar que o senhor humilde era devoto. Trabalhava todos os dias da semana, mas o domingo era sagrado. Todos na família estavam presentes na missa da igrejinha local. Naquela época a alegria maior dos humildes eram as festas e as procissões aos santos. 

O SENHOR DAS TERRAS, certo dia, precisou que o senhor humilde lhe buscasse uma encomenda na capital. O mesmo prontamente se prontificou. Qual não era a intenção senão  cortejar a filha do senhor humilde. Com a saída do senhor humilde, e já adiantada as horas, o SENHOR DAS TERRAS vai até a casa de seu empregado e ciente de que ninguém se encontrava, usando de sua força (ele era alto e forte) contra a jovem, consegue o que queria. Aquela moça, bem como aquela família, no entanto, nunca mais seriam mesmos.

O SENHOR DAS TERRAS tinha dois filhos. Um deles, mais afoito que e o outro. Naquela época os meninos não muito interessados em mulher, eram chamados de "afeminados". Nenhum pai queria ter em sua linhagem direta um filho deste jeito.

Todas as vezes que o senhor humilde tinha que viajar o SENHOR DAS TERRAS buscava a filha dele, para saciar sua vontade. Não satisfeito, ele resolve então, "educar seus filhos" na vida de "homem". E é então que leva de inicio o mais velho. Depois o mais novo que tinha os traços afeminados.

Certo dia o  SENHOR DAS TERRAS  pede para o senhor humilde ir até a cidade grande, como de costume. Sabendo que o mesmo apenas retornaria no outro dia, cuidou de arrumar os filhos para mais uma noitada daquelas. No entanto, no caminho, o senhor humilde lembra que não levava a pasta de documentos necessários para aviar os pedidos, e resolve voltar. Chega em casa do SENHOR DAS TERRAS e não o encontra. Espera mais um pouco. Chama mais uma vez. E como  estava muito cansado e com fome, segue para sua casa, a fim de comer alguma coisa. Quando o mesmo chega à porta, qual não foi sua surpresa; encontra em frente de sua casinha, os cavalos do pai e dos dois filhos. Rapidamente entra na casinha. Procura nos quartos. E o coração de pai depara-se com uma das piores cenas que um pai amoroso poderia suportar. O  SENHOR DAS TERRAS e seus filhos "aproveitando-se" daquela que sempre fora a mais pura bondade colocada por Deus em seus braços. Tomado de intensa loucura ele toma da arma pronto para atirar. Mas, não podia fazer isso com seu patrão, apesar de tudo. Este por sua vez, em nome de sua "honra" promete-lhe uma boa quantia em dinheiro pelo seu silencio, desde que o mesmo pegue sua família e parta imediatamente daquela região. Como não tinha outra alternativa, o senhor humilde deixa aquelas terras, na manhã seguinte, com a sua familia, acompanhado de uma imensa angustia.

No meio do caminho, na longa viagem para algum lugar distante daqui, a menina diz que a algum tempo desconfiava estar grávida, mas que não sabia quem seria o pai. Se o senhor das terras ou um de seus filhos. Lágrimas rolaram de todos num mesmo clamor. No entanto, resolvem calar os pensamentos naquela noite. Já que por enquanto nada mais tinham o que fazer.

No outro dia, para infelicidade do senhor humilde e familia a filha não se encontra entre eles. E em seu lugar, apenas um bilhete contendo umas poucas linhas;

"Meu pai, minha mãe, não suporto mais esta vida e nem quero lhes trazer tanto sofrimento. Na manhã de hoje tomei a resolução ultima. Estou de despedindo pra sempre. Que Deus cuide de todos. Amo vocês!"

Saem todos a procura daquela filha e para aumentar mais ainda sua infelicidade encontra o corpo daquela jovem ás margens do rio. Morta por um suposto afogamento. Sua dor era tremenda. A loucura e o desespero tomou conta daquela família. No entanto nada mais restava, senão amargar a infelicidade que se abatera sobre si.

De imediato, o senhor humilde tomou uma resolução que marcaria sua historia. Sabendo de todos os passos do SENHOR DAS TERRAS, de suas caminhadas e os lugares por onde costumava passar, ele coloca um plano em ação. Precisava acabar com a vida do SENHOR DAS TERRAS. Arma-lhe uma "tocaia" e espera. No momento certo, o senhor humilde aparece em frente a sua carruagem do SENHOR DAS TERRAS e pede-lhe uma carona. Achando que o senhor humilde estava apenas de visita aquelas bandas depois de alguns meses, o  SENHOR DAS TERRAS manda-o subir. Ele assim o faz. Num lugar escuro, quase deserto o senhor humilde desfere alguns tiros certeiros. Em cada tiro ele diz;

- O meu Deus é outro.

Nada é levado. O senhor humilde não precisava daquele dinheiro que era tomado do suor de sua gente, tão humilde quanto ele.

Até hoje ninguém nunca mais soube-se noticias do senhor humilde. O mistério de seu desaparecimento se confunde igualmente com a história do SENHOR DAS TERRAS.

A história que ouvi quando menino, infelizmente não tem final feliz. Na verdade, até os dias de hoje esse final nunca é contado do mesmo jeito. Tem quem diga ainda que existem outros contos deste conto. Mas, de uma coisa é certa, para quem apenas tem como ponto de partida o dinheiro como seu deus, é bom que se lembre que para o senhores humildes, o Deus deles, é outro.

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